O termo “desafiador de género” pode criar medo no coração de qualquer executivo do mundo da música e testar até os jornalistas mais experientes. Por vez, contudo, aparece um artista que se adapta em todo o lado e em lado nenhum; misturando vários estilos e tornando-os num som tão único, que qualquer tentativa de comparação parece insuficiente. A vocalista e autora, Sierra Hurtt, desafio-o a expandir o conceito daquilo que uma canção pode exprimir. Ela escreve com a sua alma, mas ela também pode tocar na essência de uma música que você já conhece e dar-lhe um novo significado.

O caminho para a sua carreira musical seguiu um percurso sinuoso. Filha de um premiado autor de rhythm and blues, Phil Hurtt, Sierra viu-se inserida no mundo da música desde muito cedo. No joelho do seu pai, ela aprendeu o ofício e a arte de compor boas músicas pop. Com apenas 4 anos de idade, ela tornou-se uma presença regular nos famosos estúdios de gravação de Filadélfia, convivendo com a elite do Soul de Filadélfia. Mas foi a sua paixão de adolescente com o rock and roll que fez a sua imaginação disparar e que a impulsionou para desenvolver o seu som único.

Mesmo com o seu começo precoce, Sierra abordou o seu EP de estreia, “8 or 80” [2009], com paciência infinita e uma visão inabalável. Em quatro de trabalho, a ela juntaram-se Chuck Treece, Devin Greenwood, e nada menos que outros treze músicas de elevada categoria. O seu pai, Phil, e a sua irmã, Gabrielle, juntamente com a amiga de família, Vivian Green, completaram o círculo de pesos pesados. Juntos, eles serviram com uma confirmação adicional do tipo de energia criativa e artística que transparece dela.

“Eu tento rodear-me de génios”, confessa ela com um sorriso. “Eu estou sempre à espera que um passe por mim.”

Se um artista na era digital é uma entidade auto-criada, Sierra é o protótipo disso mesmo. A reputação da sua qualidade vocal e do seu desempenho como artista ao vivo, impulsionados pela sua quase obsessiva auto-promoção, levou a lugares distantes. Ela organiza frequentemente as suas próprias tournées no Reino Unido e em Portugal, ganhando audiência com o seu calor, charme e vulnerabilidade. A sua voz de veludo pode ser ouvida numa mistura eclética de música contemporânea, incluindo lançamentos de Paul Edwards e Merv Carswell. Músicas de “8 or 80” têm sido remisturadas por Djs e por produtores de todo o mundo, como June Lopez, Greencross, e Gianluca Pighi, entre outros. Algumas misturas foram inseridas em compilações lançadas pela espanhola Essential Record [Space Ibiza] e pela Aquatique Records de Miami.

"Os últimos três anos foram um turbilhão", diz ela. "Um DJ em Manchester [Inglaterra] começou a tocar ‘Letting Go’, que eu tinha esquecido numa prateleira de casa". Ele conseguiu um MP3 em estado bruto, a partir de um engenheiro do estúdio, e eu tive que lutar para lançá-lo com single". Esse engenheiro, era apenas a lenda de Filadélfia, Gene Leone. "A partir daí, surgiu o EP, os convites para atuar em Inglaterra, e eventualmente algum reconhecimento em casa." Hurtt foi reconhecida como uma das melhores novas compositoras de Filadélfia. "Quando eu cheguei a Portugal, tive que me beliscar".

A performance ao vivo foi o ponto crucial da carreira resplandecente de Sierra. Mas até à data, a sua discografia a solo consistia apenas de um EP e um punhado de singles lançados digitalmente.

“No papel, parece como um hobbie”, afirma ela sobre a sua carreira. “

"Quase como se eu não a levasse a sério, mas é assim que seu sempre fui. Apenas demorei algum tempo a encontrar a minha voz e a sentir-me confortável com o meu processo. Eu sou capaz de escrever rápido e faço-o.... quando estou a escrever para outros, para outras vozes. Mas eu acho que as músicas que demoram mais tempo, são aquelas que são como uma extensão de mim."

O último resultado deste processo lento, “Stranger”, é o seu primeiro lançamento integral. Foi gravado em três países, durante um período comparativamente curto de 8 meses, em 2011. Sierra pega nas contradições intrigantes do seu passado, e lança-se confiante no seu futuro, envolvendo tudo em instrumentos ao vivo e numa produção excêntrica. Ela convidou alguns talentosos amigos que conheceu ao longo dos anos , incluindo músicos portugueses como Pedro Tatanka (The Black Mamba), Frankie Chavez, Rui Costa (Caruma, Silence 4) e Pedro Santos (Caruma, Brass Guitar Club Band). Também encontrou novos colaboradores, em casa, nas pessoas de Daniel Bacon (Wellstar) e Sam McIlvain.

"Stranger" é uma experiência musical única, que junta originais de Sierra com um punhado de canções, que por diversas razões, ela admira. A sua paixão por Portugal, por sua música e pelas experiências que teve por lá, dão cor a muito deste álbum. O teaser “We Can Do Anything", lançado 8 meses antes do álbum, foi escrito e gravado originalmente pelo cantor e compositor português Mikkel Solnado. Sierra transformou uma cantiga quente e tropical, numa paisagem de harmonias exuberantes e de um otimismo cauteloso.

O faixa que dá título ao álbum funde alma alternativa com riffs de reggae, enquanto que a complexidade das relações toma o centro do palco no seu segundo single, inesperadamente 'indie', "Hurt". O fado encontra Pink Floyd, na deslumbrante e atmosférica “Won’t”, mas a sua alma, inquestionavelmente rock n' roll, brilha através de uma interpretação ousada 7/8, da pouco valorizada obra dos Police, “Driven to Tears”. É certo, que a coleção é uma mistura pouco comum de estilos, mas com um fio condutor: a energia da performance ao vivo filtrada através da meticulosa atenção ao detalhe, que Sierra emprega como produtora.

É neste ambiente que Sierra prospera, explorando a coexistência mística da fragilidade e da força no espírito humano. O que ela desafia você a fazer, é a juntar-se a ela na viagem, através de fronteiras e limites, para além do género, e para o reino das possibilidades. Ela promete mostrar-lhe onde param os locais, evitando as armadilhas para os turistas e os momentos de postal, para encontrar o que é real e verdadeiro. Nisso, ela é a guia perfeita.